O sopro do coração

No Hospital onde estou a fazer o internato, durante o estágio de Pediatria somos obrigados a fazer 15 dias no berçário. Esta ala do hospital tem 33 camas para as puérparas e para os 33 recém nascidos correspondentes ( salvo raras excepções em que os bébés estão internados na neonatologia por alguma patologia mais grave…) e todos os dias eles são examinados por dois neonatologistas - e por um interno do ano comum, que neste caso era eu.
Nos primeiros 2 dias do estágio eu era simplestente uma voyer: olhava para os processos, olhava para os putos, para as mães babadíssimas, perguntava o nome da criança e dava-lhes os parabéns. Era tudo muito fácil. Depois à medida que os dias iam passando fui ganhando alguma confiança e foi-me dada alguma autonomia: já podia escrever no processo e examinar os bebés…e era bem mais difícil! Mas era giro, ver os olhares de mãe atentos e em suspense e poder dizer no fim “Pronto mamã, está tudo bem com o seu menino!” e sentir o sorriso de alívio!
Mas naquele dia o bébé não estava bem. Tinha qualquer coisa que não batia certo - não sei se era a mancha arroxeada à volta da boquita ou do sopro que se ouvia no coração…uma coisa pequenina, muito discreta….E apesar de tentar manter um olhar sereno a mãe apercebeu-se que se passava algo. E perguntou: “Dra, está tudo bem? Passa-se alguma coisa com o meu filho?” E eu não sabia responder. Não podia tranquilizar, não sabia. Expliquei-lhe que o coração do bébé dentro do útero batia de outra maneira e que às vezes ao adaptar-se à vida cá fora demorava mais um bocadinho, e que podia ser isso, mas que ia ter que chamar o meu colega mais velho para ele dar a sua opinião… E fui chamar…e voltei….e ainda demorou algum tempo até chegar o especialista….
….acho que estes minutos que ele demorou foram dos minutos mais longos de sempre…..para mim e para a mãe… e não consigo descrever a angústia que senti naquela sala….e como foi mau sentir que nada do que dissesse iria tornar as coisas mais leves…
O neonatologista chegou e confirmou o meu exame. A mãe ficou em pânico… e eu vi como não sei lidar com o lado humano da medicina… e será que alguma vez serei capaz? Ou será que vou ter aquela carapaça que aparece com a idade e nos torna imunes ao que se passa à nossa volta?…..eu sei o que queria, mas só o tempo dirá o que vai acontecer. E tudo isto deixou-me a pensar….
Em relação ao bébé….ele ficou bem.No dia seguinte já não se ouvia sopro nenhum….provavelmente seria um sopro inocente…e a máscara equimótica foi ficando mais imperceptével até que desapareceu.
Força Kikas..
Deve ser complicado, por um lado continuar “humano” por outro absorver a racionalidade que tanto caracteriza essa classe.. É um equilíbrio difícil o de tentar existir a meio..
Quando souberes como é partilha com os leitores..
No fundo no fundo, nunca saberemos…
Funcionaremos sempre por aproximação, as apalpadelas, aceitando aquilo que gostamos e renunciando àquilo que nos perturba
Cada dia me convenço mais disso, ser médico é isso mesmo…
Um sopro do coração!!!
Abraço cumplice de inquietações
Pedro-Egofonias